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quarta-feira, 4 de julho de 2018

Entrevista com Júlia Goulart: "As pessoas achavam que eu era culpada"

A jornalista Julia Goulart, da Rádio Galera, é mais uma revelação da profissão. Desde o ano passado, cobrindo os clubes gaúchos nas mais diversas categorias do futebol, ela se destacou pela sua competência, ganhando seguidores e, consequentemente, elogios. 

Porém, por duas vezes, no jogo Criciúma x Internacional, pela Série B do Campeonato Brasileiro, e pela Copa Paulo Sant’Ana, na partida São José x Internacional, ela foi vítima do machismo, de comentários nojentos e desapropriados.

As duas situações foram e são lamentáveis. As mulheres lutam pela igualdade na profissão, querem apenas exercer o seu trabalho, a sua função, sem serem incomodadas de forma deselegante.

Júlia participa do movimento #DeixaElaTrabalhar, fundado no final de março, que luta contra o assédio moral e sexual sofrido pelas mulheres nos estádios e demais lugares. Ela aceitou o convite para conversar com o blog. 

Veja abaixo a entrevista:

Atualmente, você está na Rádio Galera. Conte-nos um pouco da sua trajetória profissional.
Eu trabalho na rádio, minha primeira experiência profissional há dois anos. Tive outras duas experiências, depois da rádio, com o jornalismo esportivo, uma com assessoria de imprensa de atletas de futebol. Não fiquei muito tempo (risos), porque surgiu a oportunidade de trabalhar como repórter de TV da Federação Gaúcha de Futebol. Então, não tinha como conciliar, meu dia também tem 24 horas (risos). Então, trabalho na rádio e na TV.

Como é cobrir os times do interior gaúcho e as categorias de base?
É muito bom cobrir, porque a rádio me deu essa oportunidade, me proporcionou a ser pioneira a falar de coisas que não eram faladas. Falar dos times, das pessoas, das coisas, sempre com transparência, da base e do futebol do interior. Essa transparência é a marca. Me sinto muito realizada, porque eu ganho um retorno muito satisfatório.


Infelizmente, por duas vezes, você foi vítima de agressão verbal, de cunho machista. Se possível, nos conte como absorveu esses fatos.
Cara, a primeira vez foi assustadora, e a segunda, destruidora. A primeira foi assustadora, porque não tinha acontecido comigo antes, me assustei, abaixei a cabeça e continuei. A segunda, teve repercussão nacional. Meus familiares e amigos sofreram. Conforme saíam reportagens a respeito do assunto, minha mãe, meus tios, amigos liam os comentários. Ao invés de apoio, eram comentários que me machucavam. Prometi abandonar, mas não consegui. Espero não vivenciar mais isso. Não desejo isso a ninguém. Destruiu meus dias. As pessoas achavam que eu era culpada...

Julia Goulart, no exercício da sua profissão (Reprodução/Instagram)

No final de março, foi lançado o movimento #DeixaElaTrabalhar, que luta contra o assédio moral e sexual sofrido pelas mulheres nos estádios. Conte-nos sobre o surgimento dessa campanha e o que ele representa, vide a repercussão que vem ganhando e o apoio de atletas, clubes, entidades.
Depois de tantos episódios machistas, surgiu o #DeixaElaTrabalhar. Ele veio após as mulheres sofrerem, as pessoas discutirem o assunto. Mas os debates aconteciam após os fatos. O Deixa surge para inibir, para que fatos não aconteçam mais, para que o debate aconteça. O Deixa é o preventivo, é aquela luta diária, aquela prevenção, é a vacina, é o antes, e não o depois. Tem um debate muito grande sobre isso, mas sempre era depois dos fatos. Temos que conscientizar antes do fato, para que as pessoas não façam mais isso. Vamos lutar para que possamos cortar o mal pela raiz. A gente tem que estar no caminho certo.

Quais são os próximos passos do #DeixaElaTrabalhar?
Os próximos passos são cuidar, vigiar, ficar atentas, não aceitar mais que esse tipo de coisa aconteça. Temos que vigiar sempre para que possamos continuar nesse tratamento contra o machismo e preconceito, seja ele qual for.

Historicamente, o futebol sempre foi considerado um ambiente hostil e predominado por homens. Mas, a cada ano, o número de mulheres na imprensa esportiva só aumenta. Qual a sua análise da participação feminina nos grandes eventos esportivos e o maior obstáculo enfrentado por você para entrar nessa área?
As mulheres tinham medo de encarar. Uma começou a entrar, a outra também, e aí percebemos que dava para ingressar. Fomos nos unindo, e a gente merece tanto quanto os homens que já estavam lá. Esse aumento se deve ao enfrentamento. O maior obstáculo é sempre estar um pé atrás do concorrente homem. Ele não está naquela pressão louca. Já a mulher, que chega a um quilômetro do rapaz, tem que correr, correr. Quando eu errar, às vezes até por um erro de digitação, coisa pífia, eu errei por ser mulher, por não entender. Se o homem erra, isso é normal, ele é homem. Então, esse é o maior obstáculo.

Em sua opinião, por que há ainda um espanto ao deparar com mulheres no futebol. Você acredita que o machismo no futebol tem sido mais destaque nos programas esportivos?
Eles debatem o machismo? Sim, debatem. Mas com galhofa, com risadas, piadinhas. Estão debatendo por obrigação. Até dentro da redação, eles estão rindo de ti, te abraçam, mas estão rindo por dentro. Então, não é apenas o torcedor que tem que mudar de comportamento, e sim, todos, inclusive os colegas de profissão.

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